Crítica: Saint Seiya - Os Cavaleiros do Zodíaco (COM SPOILERS)


O ano era 2017 quando a Netflix anunciou o reboot em computação gráfica de Os Cavaleiros do Zodíaco. Aquele pôster inicial dava um belo ar misterioso do que estava por vir. A internet parou e a nostalgia tomou conta de todo mundo mais uma vez.

Nos últimos 2 anos acompanhamos as novidades, os trailers e até gravamos um PDcast sobre essa obra que tem tanta relação afetuosa com a gente.

E conforme foi passando o tempo, as novas imagens e naquele fatídico trailer a maioria percebera que estávamos diante de uma iminente bomba da Netflix. O estilo de animação totalmente diferenciado do clássico, parecendo com gráficos de PS2, a ausência de sangue e principalmente a mudança de sexo do Shun transformou o Knights of The Zodiac em uma obra totalmente controversa 7 meses antes da sua estreia.

Mesmo com a recepção ruim dos fãs e da crítica, eu resolvi assistir com mente aberta. Eu realmente não consigo deshypar muito com CDZ, na hora que tocou Pegasus Fantasy em inglês (mesmo sendo um sacrilégio) já estava me sentindo em 2004 quando eu conheci o anime na Band e já tinha esquecido o hype negativo.

Então CDZ foi realmente estragado pela Netflix, assim como outras adaptações?


Olha, para uma série que teve os contestadíssimos Saint Seiya Omega, Saintia Sho, o trágico filme A Lenda do Santuário e ainda faz o sucesso que tem, sendo uma das franquias de maior prestígio e venda da Toei, acho que CDZ está longe de acabar. De verdade, até porque mais uma obra ruim não vai matar um anime clássico.

Acho que muito pelo contrário, vai acabar fazendo os fãs gostarem mais ainda das obras antigas. Exatamente como foi o efeito da Lenda do Santuário. E não há como não comparar: o filme em CG é muito semelhante com essa série da Netflix em vários aspectos.

O primeiro deles é a infantilização de Saint Seiya. Apesar de ser um Shonen (obra para jovens e adolescentes), uma das maiores marcas de Cavaleiros foi a parte adulta da coisa. Logo de cara nos apresentamos à um anime que tem uma orelha decepada, no quarto e quinto episódio Seiya e Shiryu já sangravam horrores e nem cito a batalha de Shiryu e o Dragão Negro.

Esse reboot da Netflix, assim como o filme de 2014, é praticamente zero de sangue. As batalhas são extremamente limpas em termos de ferimentos e a maioria delas deixa muito a desejar. Claro que vemos aqui um pensamento em relação ao público bem mais infantil que não deve estar habituado às batalhas sangrentas dos animes clássicos.

 Eu me incomodei mais com a lerdeza dos combates do que a falta de sangue em si. Elas são resolvidas rapidamente, mas sem a menor graça. Não grandes efeitos e aquele drama que a gente está habituado. Tudo é resolvido fácil e rápido demais, sem muito brilho.

Não que a obra original seja uma grande referência em combates, o que claramente não é, mas há muitas batalhas marcantes já no início da Saga e todas que foram refeitas sob a égide da Computação Gráfica da Netflix não vingaram.

Alguns desses combates chegaram a dar vergonha alheia como Seiya e seus amigos enfrentando TANQUES DE GUERRA. Sim, no anime clássico eles enfrentam adversários com helicópteros e armas, só que... não colou mesmo, soou estranho para caralho com essa animação.

Animação tal que não é de todo o ruim, mas na cena que citei acima ficou horrível mesmo. Creio que a maior parte boa da animação ficou nas cenas escuras. Onde deu pra proporcionar belos shots e ficou muito bonito em alguns momentos.  Principalmente nos flashbacks: Se notava que em cada flashback, para destacar da linha temporal do roteiro, eles caprichavam um pouco mais.

No que tange ao design dos personagens... Bom, tem uns bem zoados e outros muito bonitos, como o caso da Marin, que ficou perfeita em 3D. Achei que acertaram a mão legal com ela, melhor que todos os jogos que CDZ lançou nos últimos anos. A média dos outros personagens fica do OK (Shiryu, Hyoga), Aceitável (Ikki, Saori) e os horriveis (Shina, Geki, Jabu) e por aí vai. Ao todo, o design 3D dá para acostumar, tirando a maioria das cenas à luz do dia, ali revela as fragilidades deste tipo de animação.


Eu vou falar aqui e eu não achei o roteiro tão terrível quanto eu imaginava que fosse. Sério mesmo. Saint Seiya é conhecido pelo seu interminável lenga-lenga, explicações entre as lutas, excesso de diálogos edificantes etc. Bom, os roteiristas cortaram tudo. 

Sim, como é bom você assistir um anime sem ficar se explicando toda hora, já disse isso na crítica de Neon Genesis Evangelion. E a melhor parte deste reboot é que o roteiro tá bem enxuto, mesmo que tenha tomado decisões que eu não goste, pois vai contra com a série que amei na infância, não se pode dizer que há incoerência. Tudo é bem explicado e não é repetitivo.

Na real, o próprio anime faz uma auto-zoação em uma linha de diálogos. Lembrando a gente dos "personagens surdos" de CDZ: No final,  no combate contra os Cavaleiros Negros o Shiryu pergunta "Que armadura é essa?" e o Hyoga retruca "Mas que tipo de pergunta é essa Shiryu, quer comprar uma pra você?" velho, gargalhei pesado nessa parte.

Outro ponto interessante são os chamados alívios cômicos. Diferente da Saga Clássica, onde tudo é mais dramático e as partes cômicas são deveras isoladas e bobas, aqui a zoeira tá liberada. A dublagem (excelente por sinal) colocou alguns bordões da internet e me surpreendeu bastante, a cena do bueiro discutindo com o Seiya e falando "SABE DE NADA INOCENTE" eu tive que parar o player pra rir bastante.

Alívio cômico nunca foi muito a cara de Cavaleiros, diferente de Dragon Ball, já que o Toriyama é um cara da comédia. Mas sempre achei que combinaria alguns momentos engraçados. Deu bem certo nesse caso.

Conclusão


Saint Seiya - Os Cavaleiros do Zodíaco é um reboot morno, higienizado e infantilizado da saga principal. Foi bastante enxuto pelos produtores e roteiristas e embalaram bastante para deixar com "cara de anime" e exportar para os EUA. 

Tanto é que os episódios tem 23 minutos, possuem vinhetas no meio dos episódios (antigamente utilizados para determinar os comerciais) e uma abertura e encerramento em inglês.

Ou seja, uma busca de um novo público, assim como os novos conteúdos de Caveleiros. Não vai ser essa obra que irá destruir o legado da saga original, e assim como o filme de 2014, não vai ser dessa vez também que o "novo público" será conquistado.

Mas é preciso reconhecer que em questão de enxugada de roteiro e alívios cômicos a série acertou muito bem e livrou esse reboot de ser um desastre. 

Bom, é isso.


Crítica: Saint Seiya - Os Cavaleiros do Zodíaco (COM SPOILERS) Crítica: Saint Seiya - Os Cavaleiros do Zodíaco (COM SPOILERS) Reviewed by Adão Filho on julho 20, 2019 Rating: 5

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