Crítica: Demolidor - Terceira Temporada (COM SPOILERS)


A Série do Demolidor tem sido a menina dos olhos dos nerds na Netflix nos últimos anos. Foi o ponto forte da parceria Marvel com o serviço de streaming, e como os super-heróis estão em destaque no cinema mundo a fora, Demolidor tem ganhado um destaque maior ainda.

 E todo um clima de expectativas (boas ou más) foi criado até chegar o dia 19 de Outubro de 2018.

A Jornada da Netflix até aqui


A primeira temporada, foi anunciada sem tanto alarde, visto que tivemos filmes extremamente fracassados, contando a história do Homem Sem Medo, lembrada como uma piada até hoje. Muitos cornetam o Ben Affleck até hoje por aquele papel.

Eis então que a Netflix lança a primeira temporada da série em 2015 e para o mundo com uma obra que é quase uma antítese do Universo Cinematográfico da Marvel: e deu muito certo.

Na nossa crítica que fizemos recentemente, em sua primeira temporada: Vemos uma nova york sofrendo pelos estragos causados pela Batalha de Nova York em Vingadores. Temos uma série extremamente séria, sombria, com um viés realista do MCU. Nos mostrando um olhar totalmente diferenciado do que víamos nos cinemas.

Essa ideia deu muito certo e ganhou muito público, se tornando um dos carros-chefe da Netflix.

Com o Hype lá em cima, veio a segunda temporada. E decepcionou muita gente, visto que realmente não teve o mesmo impacto e nem a qualidade da primeira. Eu particularmente gosto muito da segunda temporada, entretanto alguns probleminhas que já existiam foram aumentados (como alguns episódios que eram bem arrastados e chatos), além de tramas bem complexas que se tornaram muito maçantes para o público.

Mesmo assim, a série fez um bom papel, trouxe cenas de ação excelentes e personagens novos muito interessantes: Como o Justiceiro e a Elektra. Mesmo com a clara diminuída na qualidade, Demolidor ainda era a melhor série da Marvel na Netflix.

A terceira temporada veio em um hype diferente. Houve muita insegurança que a temporada pudesse diminuir a qualidade, visto que muita gente não gostou de Defensores: a união dos heróis urbanos contra o Tentáculo.

Então a produção das séries da Marvel na Netflix estava em Xeque. Algumas foram canceladas: Luke Cage, Punho de Ferro... Não se acredita que Defensores poderá voltar e ainda por cima tem a ameaça do serviço de Streaming da Disney chegando, que pode levar todos os personagens para ela e fazer com que a Netflix fique sem alguma série boa de Super-Herói.

A terceira temporada de Demolidor não poderia errar mais. Precisávamos de uma temporada do nível da primeira: Com cenas de ação de tirar o fôlego, trama mais simples e bem mais enxuta (por favor).  Mesmo assim eu ainda mantinha a fé que a série não decepcionaria. Visto que mesmo com ressalvas eu ainda gostei bastante de Defensores e de Demolidor 2.

E ainda por cima as especulações em torno da adaptação da Queda de Murdock, uma HQ aclamada entre os fãs só aumentava minha confiança.

A Introdução de Um Herói Caído


Acabado, destruído, desesperançoso.. foram essas palavras que me circularam durante a introdução e que me perduraram durante toda a série, por outros motivos.

No início vemos um derrotado Matt Murdock, sendo cuidado pela Freira e pelo Padre no orfanato que foi criado quando perdeu o Pai. Essa parte eu tava com medo de se tornar um tanto arrastada demais, mas foi muito pelo contrário: Foi a melhor introdução das temporadas anteriores. Visto que temos finalmente uma discussão muito maior em torno da religiosidade de Murdock.

É um tema bem abordado na primeira temporada, até porque mostra Matthew no confessionário e discutindo com o Padre em torno que tem feito na sua "segunda vida". Mas nessa temporada: Todos os problemas em torno de Defensores e na Segunda temporada recaem sobre o protagonista. 

Temos que aceitar que um prédio caiu em cima do Demolidor, e ele não é um homem imortal. O sentimento da possível perda de seu Amor (Elektra), a surdez de um ouvido, a dor física de anos como um justiceiro enfrentando tiros, facas e socos e prédios tornam Matt um homem derrotado. Fica questionando sua fé e sua missão no mundo o tempo todo.

E enquanto isso você sofre junto com ele. Todos os diálogos com a Irmã Maggie são muito pesados, nos fazendo pensar como seria uma possível redenção do Demônio de Hell's Kitchen. 

Foi uma introdução melhor que eu pensava, de maneira fluida, você já entra conectado na história e sentindo todas as angústias de Matt e entendendo cada sermão moralista da Irmã Maggie. Digo que você sofre com Murdock, visto que o cara mal cura algumas feridas que já sai para a porradaria com bandidos, para provar a si mesmo que está vivo. E o pensamento que veio na minha cabeça é basicamente "mano, para com isso". E tudo isso em torno da religiosidade dos personagens, ampliando ainda mais a carga dramática.

Enquanto as feridas dos ultimos combates de Murdock vão se curando e você começa a ser introduzido na história principal. Essa introdução acertou em servir para nos conectarmos com o protagonista. Muitas pessoas alegam que ele é um cara muito mané e difícil de criar empatia, isso não é um problema nessa temporada.

O Retorno e a Transformação de Wilson Fisk


Uma coisa que me me preocupava era o retorno de Wilson Fisk como vilão principal. Ele mandou muito bem na primeira temporada, mas acabou por sendo apenas "mais um bom vilão", achava que seria difícil de nos impressionar novamente.

Acontece que Wilson Fisk fica 2 vezes mais maligno. Antes era apenas um vilão que tinha "boas intenções" utilizando meios errados para conquistar o que almejava. Agora ele é um sociopata, um doente. 

Poucos vilões me fizeram sentir tanto ódio quanto ele. Extremamente manipulador, Fisk consegue colocar o FBI no Bolso, para fazer o que bem entende, os transformando em seu exército.

Eles acertaram em cheio na construção do vilão principal. Como bem afirma um prisioneiro na segunda temporada "não há um trono que Fisk não queira sentar" e essa frase faz mais sentido aqui. Ele seleciona todos seus inimigos e busca estraçalha-los um por um, não importa o meio utilizado.

Por exemplo, para destruir o Demolidor, ele utiliza um funcionário do FBI (que não faço a menor ideia de como entrou lá) com tendências de psicopatia. Entrega o traje vermelho do Demolidor para o mesmo para fazer atitudes desumanas,

Tudo isso para destruir não somente o Herói Demolidor, como Matt Murdock, Karen Page e Foggy Nelson, os três personagens principais. Conhecendo a identidade secreta do Demônio de Hell's Kitchen, O Rei do Crime toma monstruosas atitudes para destruí-los.

Fisk mudou. Agora é um monstro rancoroso disposto a tudo para matar. Ele está bem mais perigoso que nas ultimas temporadas, e como sabemos que o que faz uma obra de super-herói ter amplo sucesso é ter um grande vilão, a temporada acertou em cheio.

Cenas Memoráveis e Clássicos do Gênero


Demolidor reproduziu o maior clichê das histórias de Super-Herói: O Vilão com o mesmo uniforme do Herói, deixando a dúvida na cabeça das pessoas de quem é o verdadeiro Herói. Que parada Sensacional, um clichê muito bem feito, muito porque o homem com a roupa de Demolidor é um personagem com problemas psíquicos graves.

A série da uma bela viajada para conhecer esse personagem. Você vê o Fisk no meio de um flashback em preto e branco, mostrando os acontecimentos mais importantes de Dex. Foi uma cena muito marcante, por todo o emocional que ela significa. O jovem Dex conta seus "traumas" enquanto a Psicóloga, aflita descobre um paciente com psicopatia.

E Wilson Fisk no meio disso, observando essa lembrança do passado. Na realidade, ele estava apenas lendo os relatórios, mas o artifício narrativo foi ótimo. 

Essa com certeza foi uma das cenas mais memoráveis da temporada. Mas a que mais me marcou realmente foi o plano sequência de ação que durou quase 12 minutos de porradaria sem cortes.

Puta que Pariu que cena sensacional, superando aquele plano sequência do episódio 2 da primeira temporada. Essa cena, para quem não viu ou não lembra: é no episódio 4, quando Matt vai para a Prisão, as coisas dão errado e acontece 12 minutos de pancadaria sem cortes.

Tinha lido na IGN que toda essa sequência insana demorou um dia inteiro para ser concluída. Nem o próprio Charlie Cox (Matt Murdock) acreditou que seria apenas uma tomada de gravação. A câmera na mão acompanhando o protagonista, a pancadaria... você é transportado pra dentro da cena.

 Bom, foi um trabalho espetacular, não tem muitos adjetivos além desse. Com certeza essa cena se tornou a mais icônica da temporada.

Aparando arestas e simplificando a história



O Roteiro parece ter sido cuidado nos mínimos detalhes, visto que muitos dos problemas anteriores da série parecem ter sido consertados. Por exemplo: Não temos uma história burocrática cheio de uns detalhes que precisamos assimilar, tornando uma experiência maçante. Nós participamos junto da história que progride de maneira gradualmente. Aos poucos Matt se recupera das feridas físicas, enfrenta sua fé, depois Fisk está de volta e começa a arquitetar seus planos e por aí vai.

A série não tem pressa, mas também não fica te enrolando e fazendo dormir. O ritmo é muito gostoso, significa que o roteiro foi muito bem escrito, me senti assistindo as primeiras 4 temporadas de Game of Thrones, quando o tempo voava e eu não percebia a passagem dele e queria mais episódios. 

Demolidor me fez querer mais episódios, mais histórias... e já quero a quarta temporada. Outro acerto foram nos coadjuvantes da história: como o já citado Dex, o Agente Nadeem, do FBI, que foi escrito com muito cuidado e qualidade. Eu jurava que ele seria só um personagem que poderia perder tempo, mas não, sua importância é crucial na temporada inteira e foi uma das minhas maiores surpresas.

Foggy e Karen são melhor abordados também. Principalmente a Karen, que eu quase enjoei de assistir na segunda temporada. Ela tem um destaque muito bom, é explorada sua história  de vida e todos os seus sentimentos entre ela, o passado, Matt e o Demolidor. E tudo isso para confrontar Fisk. Que bom que realmente utilizaram ela de maneira dosada.

Karen também é o link que utilizaram para conectar Fisk ao Demolidor e à eventos da primeira temporada, no caso o assassinato de Wesley, seu melhor amigo. Sacada genial, visto que uma 3ª temporada não pode ser autônoma e ainda havia conflitos das temporadas seguintes que precisavam ser resolvidos, então a solução que deram foi perfeita: Karen Page.

O meu ponto favorito da série foi na revelação que a Irmã Maggie era Mãe de Murdock. Cara, para quem não leu tantas HQs na vida como eu, foi um plot twist nível Garota Exemplar. Porra, é como se eu estivesse assistindo um filme do David Fincher. Isso mudou a história de maneira inimaginável, tudo o que sabíamos sobre a história de Murdock antes dele ser treinado por stick e se tornado um justiceiro foi por agua a baixo. E percebemos que realmente é verdade que todo mundo abandona Matt Murdock em algum momento. 

Com essa revelação naquele momento onde Fisk estava mais poderoso que nunca e o mundo do protagonista parecia desmoronar eu senti desesperança. Não conseguia imaginar que era possível uma solução para todos esses problemas. Isso se tornou a redenção de Murdock e todo o arco final muito mais emocionante que eu podia imaginar.

Conclusão



A Terceira temporada de Demolidor é intensa, triste, e amplia a complexidade dos personagens. Envolve diversos fatores que já conhecíamos em um nível superior: A religiosidade de Murdock, relação dele com coadjuvantes menos explorados e contra Wilson Fisk. Introduz novos personagens complexos e interessantes e nos conduz numa história de redenção como nunca feita antes nas temporadas anteriores.

Série mágica. 



Crítica: Demolidor - Terceira Temporada (COM SPOILERS) Crítica: Demolidor - Terceira Temporada (COM SPOILERS) Reviewed by Adao Filho on outubro 21, 2018 Rating: 5

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