S&M - O Álbum Cult do Metallica



"Para entender algum fato, é necessário compreender o contexto histórico." 

O ano era 1999. O Metallica que era uma lenda cult dos anos 80 resolveu se tornar mais comercial.  Depois do Load e do Reload, que foram duramente criticados pelos fãs, apesar do sucesso comercial e da criação de um "Novo público" na época, o Metallica parecia querer experimentar mais e mais.

Isso veio muito devido ao diretor Bob Rock, o produtor do Black Album, do Load, do Reload, Garage Inc...  E o produtor foi uma das mentes por trás do show mais exótico que o Metallica produziu na carreira de tantos anos.

Em 1991, quando contrataram Bob, O Metallica teve a audácia de criar uma balada romântica: Nothing Else Matters, uma composição que James Hetfield tinha feito durante a turnê do ...And Justice for All e tinha muito medo de lançar , como ele mesmo tinha relatado. Na música, há alguns arranjos (nem tanto perceptíveis até) de violinos. Esse som de violino veio da parceria com o Maestro Michael Kamen, que a pedido dele, queria fazer mais um projeto com a banda. Esse projeto finalmente se concretizou em 8 anos depois.

Na "fase de experimentações" do Metallica. A banda já tinha feito vários shows e gravado alguns shows, lançando em VHS: Seattle 89 (Justice Tour), San Diego 92 (Black Album Tour), Cunning Stunts (na turnê do Load: Poor Touring Me). Eles precisavam fazer algo diferente. Então a união com Bob Rock, Michael Kamen e a Orquestra Sinfônica de San Francisco gerou um álbum ao vivo: O S&M, que sim, é um álbum (confirmado pelo próprio site do Metallica).

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A missão parecia ser difícil.  Encaixar clássicos oitentistas e as músicas novas juntamente com uma orquestra sinfônica, fazer algo memorável. Era uma missão de abrir horizontes na musicalidade da própria banda.

Essa busca de combinar música clássica com o próprio material veio muito de Cliff Burton, que era um amante da música mais erudita. Além disso o Deep Purple, uma das inspirações de Lars e James já havia feito projeto semelhante.

Enquanto os fãs mais conservadores criticavam as obras mais recentes, o quarteto passou o ano de 1999 treinando e aprimorando a química com Kamen e a orquestra sinfônica.  Além de buscar a perfeição entre as músicas já criadas anteriormente, também produziram novas músicas, para os shows que seriam gravados.

Foram testadas diversas músicas , e muitas não passaram por não encaixarem: A mais falada foi Fade to Black.

Bom, e o resultado?

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Depois de tudo o que escrevi... O resultado de todas essas incertezas, o momento que a banda estava passando, o árduo treinamento junto com Kamen e a orquestra foi um álbum simplesmente marcante, único.

O espetáculo, que na verdade é uma seleção das melhores apresentações de 2 dias de concerto, começa com  a orquestra tocando Ecstasy of Gold, tradicional nas aberturas da banda. Dessa vez deu pra sentir arrepios, a sinfonia ao vivo executando Ennio Morricone e já nos dando uma amostra do que estava por vir.

Depois desse aperitivo, tivemos uma música premiada. The Call of Ktulu, a segunda música instrumental do Metallica, lançada inicialmente no Ride The Lightning, ganhou o Grammy de melhor performance de rock instrumental.

E realmente foi merecida. A performance foi imponente, a orquestra amplia a sensação de perigo iminente que a música quer mostrar. Prestando atenção na música, você percebe que o volume do Baixo de Jason Newsted realmente estava alto naquele momento, muito ressaltado.

Logo após esse início de arrepiar, o Metallica parecia que planejou tirar o fôlego com Master of Puppets logo de cara.

Mal começou o show e aquela introdução marcante já era tocada , os instrumentos de sopro e os de corda trabalhando em conjunto com o quarteto. E do nada uma das maiores surpresas e pontos positivos do show:

A voz incrivelmente diferenciada de James Hetfield. 

O S&M foi o único álbum do Metallica que o vocal estava com o Auto-tune (isso mesmo que você leu).

A voz totalmente diferenciada de James, com auto-tune, serviu para aumentar o teor melódico das músicas.  Creio que a edição do show teve esse cuidado de conseguir colocar esse efeito vocal para combinar com os instrumentos.

É válido ressaltar que o S&M teve vários meses de polimento do som. Assim como álbuns de estúdio comuns.

Esse som polido, o vocal melódico fez Master of Puppets ter a melhor performance da história da própria música. Seu único defeito foi que James colocou o público para cantar em excesso, mas nada que apague esse momento.

Foi a primeira performance apoteótica do DVD/CD, mas não a última.

Depois de abrirem o show chutando tudo, uma puta sequência de músicas: Of Wolf and Man, The Thing that Should Not Be, Fuel e Memory Remains animaram bastante o CD 1.

Destaque absurdo para Wolf e Thing.  James acertou muito o Feeling das faixas. Em Thing, a história contada pela letra transparecia nos gestos e nos gritos insanos do Frontman.

Fuel e Memory Remains serviram muito para agitar o público. O Metallica hoje em dia também utiliza as mesmas músicas para esse fim, entretanto, os celulares atrapalham muito a animação do show. Um dos motivos para agradecer que esse concerto foi nos fim dos anos 90 é que não foi na era dos smartphones e assim o público cantava, gritava e interagia com a banda.

Até essa parte do concerto, pelo DVD, vc já notava que além dos experimentos musicais, via que o show foi extremamente bem gravado. O posicionamento das câmeras era meio que cinematográfico e havia câmeras nos braços das guitarras e nos microfones.
yeeeeeah

Engraçado que sempre achei que o Metallica se comporta como verdadeiros artistas de cinema/teatro: gestos, modo de tocar e o jeito que se posicionam quando são gravados... parece algo treinado.

No S&M não é diferente. O quarteto , liderado por James, se posiciona em frente as câmeras de maneira quase estratégica, fazendo gestos em meio aos efeitos sonoros que as músicas têm.

Por exemplo, For Whom The Bell Tolls, no CD 2, James em frente as câmeras amplia toda a dramaticidade que a música oferece. Naquele trecho "Take a Look, to The Sky Just Before You Die, is the last time he will" ele faz vários sinais com a mão, as luzes apagam... Um espetáculo à parte.

Bom, falaremos mais de For Whom the Bell Tolls mais à frente.

Depois de Fuel e Memory Remains, quando percebemos toda a proposta da obra de arte que o Metallica propôs a fazer, vêm uma música nova: No Leaf Clover.

A sua letra pessimista, os arranjos da orquestra sinfônica e a voz em auto-tune melódica nos proporcionaram a primeira música inédita em Symphony Metal da história do Metallica.

Ela é linda, a química da banda com o maestro e a orquestra é irretocável. No Leaf Clover, é extremamente subestimada, e até hoje o Metallica tocou pouquíssimas vezes depois de 1999.

Confira o Clipe Oficial:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Fd9ohpDDCRU&w=853&h=480]

Chegamos na parte final do CD 1 do S&M. As 3 últimas músicas são Hero of The Day, Devil's Dance e Bleeding Me. Destaque maior para Bleeding Me, que ficou sensacional.

Alguns consideram fraca e outros subestimada... Entretanto no S&M essa incrível ballad surpreende. A voz melódica de James fica perto de seu ápice (que seria superada no CD 2). O teclado e os violinos ficam em evidência juntamente com o riff claramente inspirado do Blues.

Uma performance emocionante, que fechou o CD 1 (ou a primeira parte) do concerto com chave de ouro e deu aquele gosto de quero mais.

S-M

No CD 2 , já começamos com Nothing Else Matters. A famosa música que rachou os fãs.

E ainda há um diferencial: James no meio da orquestra com um violão, voltando a ressaltar aquele capricho (ou estilo) da banda quando são gravados.

Bom, se Nothing Else Matters foi a música que uniu Kamen e o Metallica, não tinha como esperar nada além da melhor performance da própria música na história da banda.

Nela há um cuidado até das câmeras de mostrar os outros instrumentos que fazem parte da música, que podem sair despercebidos aos ouvidos menos atentos. Esse cuidado da edição do show se perpetua muito mais nessa metade final do show.

Depois de uma obra de arte, vamos à uma nova surpresa: Until it Sleeps.

A música do Load, que foi a primeira a sair, era imensamente criticada, porque o Clipe  ter sido o verdadeiro marco inicial da mais odiada fase da banda.

Ela, juntamente com a sinfonia ficou fantástica. Os violinos mais uma vez sendo destaque durante os riffs de guitarra, enquanto James canta uma música pessoal, que retrata todos os problemas familiares (religiosos) e a morte da mãe.

Vale muito a pena você ouvir essa música no S&M.

Bom, depois de 2 músicas melódicas e excelentes, o Metallica chuta bundas com For Whom the Bell Tolls, e a sua apresentação apoteótica.

A música já era dramática por si só. Mas James Hetfield pareceu que queria fazer o show da sua vida, e ampliou o nível da música para níveis extremos.

Na orquestra, instrumentos de sopro protagonizavam essa obra de arte.

Os efeitos sonoros do eco no trecho da música: "he hears the silence so loud" e o trecho já citado de quando as luzes apagam animam o público de uma maneira inimaginável.

Para não somente exaltar a performance do frontman. Jason Newsted mostra o quanto é subestimado. Apresentação perfeita, não somente tocando baixo, mas também com um backing vocal de tirar o chapéu, algo que está em falta no Metallica hoje em dia.

A energia do Jason Newsted realmente faz falta, vendo o S&M eu fico triste pelo Metallica ter perdido um membro tão talentoso e dedicado.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=jucYJSZR9qg&w=853&h=480]

Depois de For Whom the Bell Tolls, partimos para mais uma música inédita: Minus Human.

Talvez seja a música mais underground da banda. Ela é muito desconhecida. É abaixo de No Leaf Clover, mas não deixa de ser menos impactante. A letra também é profunda e o riff da música extremamente simples.

A composição da música chega até lembrar um pouco o St. Anger por ser simples e tem umas transições parecidas.

Wherever i May Roam é o próximo clássico. Na minha opinião, é a melhor música do Black Album e no S&M não deixou de ser tão espetacular.

A orquestra amplia aquele riff principal que todos conhecemos, é muito interessante perceber que o estilo clássico combina com o heavy metal com tanta facilidade.

Depois de Wherever, a maior surpresa de todo o show. A música mais underrated da banda: Outlaw Torn.

Para quem não conhece, Torn é a última música do Load. Ela tinha uma certa popularidade entre os fãs, que consideravam a melhor do album de estúdio.

Ao que parecia, a música do estúdio parecia ser apenas uma "versão demo" do que foi executado no S&M.

The Outlaw Torn parecia que foi escrita e composta para ser executada com orquestra sinfônica. A letra de desespero, de alguém que espera por outra pessoa pelo resto da vida, o baixo destacado durante a música e a orquestra em evidência transforma a música em uma obra primorosa.

James chega ao zênite da sua performance vocal. E o solo de Kirk amplia toda face melódica e desesperadora que a canção quer propôr.

É uma obra única, indiscutivelmente uma das melhores músicas do Metallica.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=jSedXGIH6CM&w=853&h=480]

A música esquecida do Load ficou tão perfeita no S&M que atrai toda a atenção e deixa Sad But True (que veio em seguida) como apenas "mais uma".

Mas as atenções voltam para One. A música que muitos consideram como a melhor música do Metallica (em comparação com Master of Puppets) fica excelente também, principalmente no trecho antes do solo.

Na introdução da música, vemos as câmeras circulando todo o espaço... Querendo mostrar que o quarteto não poupou esforços em fazer um concerto com a melhor tecnologia possível em 1999.

Os violinos deixam uma ambientação foda em meio à interpretação de James da canção, que retrata um soldado prestes a morrer em uma guerra.

Já Lars Ulrich estava no fim do auge da sua forma física. Foi perfeito o show inteiro, com destaque para Battery, a música que encerrou o show, que mesmo depois de 2h e 30 minutos o baterista estava com sangue nos olhos e depositando toda sua alma na ultima música do set.

Ele e Kirk Hammet foram irretocáveis durante o album inteiro. Hoje em dia são os membros mais criticados.

Battery terminou uma obra de arte do Metallica, a assinatura do artista na sua maior obra.

Concluindo


O S&M foi um álbum ao vivo simplesmente espetacular. Os 4 membros no auge de suas formas físicas e técnicas combinaram perfeitamente com Michael Kamen e a Orquestra Sinfônica de San Francisco.

O Metallica sim teve um album com Metal Orquestrado, e hoje em dia só é considerado como um bom show.

Um experimento que abriu horizontes para um quarteto que já tinha conquistado tudo o que podia. Conseguiu aperfeiçoar suas músicas do passado, adequar às músicas recentes que foram duramente criticadas e ainda produzir um material novo.

É o meu CD preferido da banda e não por acaso.

Para não dizer que não é a maior obra da história da música (rs)  apenas Enter Sandman que pareceu um pouco estranha, mesmo assim à partir de uma terceira escutada fica melhor.

Bom, nota 10/10: Único.
S&M - O Álbum Cult do Metallica S&M - O Álbum Cult do Metallica Reviewed by Adao Filho on agosto 05, 2017 Rating: 5

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